O Ultimo Dia do Ano - Uma homenagem a Carlos Drummond de Andrade

Feliz 20122
Que o Calendário Maia não esteja correto na previsão que o mundo irá acabar em 2012. Como sempre, de tempos em tempos surge um "fim do mundo", mas a vida segue forte, bonita e desafiadora, como deve ser. Como a maioria dos meus amigos e daqueles que acompanham meu blog sabem, descobri meio que por acaso o prazer da leitura e nesta andança por milhares de livros e paginas, dos mais váriados generos literários, teve um que li pouco e publiquei nada a respeito que é a poesia. É, talvez, o modo de leitura mais dificil de ser feito, pois a leitura de uma poesia, você precisa de colocar no lugar do autor e perceber a mensagem que ele quer passar. Ler uma poesia ou um poema, da mesma maneira que lemos um romance, não funciona. Experimentem ler, como dizem os poetas, com o coração.
Para brindar a chegada de 2012, resolvi prestar um singela homenagem ao maior poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, publicando o poema "O Utimo dia do Ano".
Espero que gostem!
 
PASSAGEM DO ANO

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o
[ calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória,
[ doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o
[ clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do
[ acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos
[ séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras
[ espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.



Meus votos de muitas alegrias, felicidades e desafios no ano que se inicia a todos meus familiares e amigos, que fizeram 2011 inesquecivel.

Comentários

  1. Nada como começar o ano com palavras de Drumond, eu diria que é bem mais profundo, criativo, intelectual e sensivel que qualquer outra reflexão ou cumprimento.
    Que 2012 seja "eterno enquanto dure" para todos nós e que seu blog cresça cada vez mais atingindo o sucesso que tanto merece.
    felicidades!!!

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